terça-feira, abril 18, 2006
Observadores d’Ampulheta
Do alto do século espreita os anos que passam como quem se instala à janela para conferir as rugas da rua.
segunda-feira, abril 17, 2006
Toldadas Cintilações
Uma tremura de luz agita o pacato rio e um barco de garrafas fura a violenta onda da noite.
quinta-feira, abril 13, 2006
Detectives de Brincar
Aos charadistas do quotidiano – empenhados como os viciados em palavras cruzadas, meticulosos como os coleccionadores de borboletas, lógicos como os famosos mestres de xadrez – não se lhes pode sugerir o menor indício, seja uma dissonante nota na pauta ou um pormenor absurdo na paisagem, sobre qualquer enigma de algibeira. Pacientes como os inventores da pólvora, mais ano menos mês, encontram sempre a chave dessa verdade de pacotilha.
quarta-feira, abril 12, 2006
Gato Medium
A hirta cauda do felino, com seu leve agitar de bandeira em mastro esvoaçante, ao pisar felpudos tapetes encarnados ou soalhos encerados de brilho, sem nunca perder seu ar de Xá da Pérsia, de Senhor do Mundo, tornava-se uma metáfora do desejo adiado.
terça-feira, abril 11, 2006
Traição do Olhar
As pupilas lêem, vezes sem fim, uma palavra que, entre milhares d’outras, a mão escreveu. Distraídas com os exércitos de letras, não descobrem que o sentido que se pretendia dar àquele termo é contrariado por aquilo que foi, de facto e d'ortografia, registado no papel.
E é preciso a lupa de pupila alheia para denunciar aquela traição do olhar, que nos convenceu que tínhamos escrito o que não tínhamos escrito.
E é preciso a lupa de pupila alheia para denunciar aquela traição do olhar, que nos convenceu que tínhamos escrito o que não tínhamos escrito.
segunda-feira, abril 10, 2006
Testamento Rasgado
Quando, finalmente, cerrou as pálpebras deixou ao Mundo um sorriso como herança, duas palavras absolutamente justas, três amigos que lhe perpetuaram a memória. Mas nenhum testamenteiro para dividir moedas douradas, zangas ancestrais, ambições de famas futuras.
sexta-feira, março 31, 2006
Diálogos d'Especiarias
A conversa era cordata. Repentinamente, um brado. Em réplica, um grito. Como tréplica, uma estalada.
E, assim, apimentaram a canela...
E, assim, apimentaram a canela...
quarta-feira, março 29, 2006
Ruídos Cívicos
Ao contrabaixar um jazz antigo em noite vadia como gato de pêlo escuro, uma algazarra repentina interrompe-lhe a partitura da memória – mais uma zaragata entre pardas fardas da autoridade!
terça-feira, março 28, 2006
Perfume Atlântico
Encalhou o navio no cortinado da janela, como se o titânico paquete fosse um singelo vaso de manjerico convencido que era âncora...
domingo, março 26, 2006
Bisbilhotices Dominicais
O olhar alheio vai saltitando entre a letra e os perfumes, tanto pousa na garrafa âmbar como num penteado ruivo, aparentemente sem distinguir um texto apócrifo da gente gira...
Distraído domingo!
Distraído domingo!
sábado, março 25, 2006
quinta-feira, março 23, 2006
Exposição de Guardanapos
Um travo a alho, um grão de sal, uma conversa mais apimentada, um olhar de mel, uma nódoa de vinho... Aquela lingerie de paladares é exibida num estendal de roupa, quando as cortinas do teatro já caíram no sono, como se fossem bandeiras de naus e de iates a coalhar uma marina de porto exótico.
quarta-feira, março 22, 2006
Discreto Capitão Haddock
"De cabelo na venta, Orlando Piçarra da Rebolosa gritava que o pai era um sáfaro e tinha um toutiço de chibo! Mas, doutora, meu pai é um mamarracho e tem um cachaço grosseiro! Mas, doutora, meu pai é um zarolho, um xordo, um visigodo, um urinol, um torresmo, um salsicha, um ruminante, um queixumeiro, um parto prematuro, um odisseico, um narcótico, um malfeito, um luze-luze, um Ketchup! Mas, doutora, meu pai é um jarreta, um israelita, um honoris causa, um gorgomilo, um furúnculo, um emolumento, um descoco, um canhonaço, um bichoso, um amanuense!"
(Carlos Mota de Oliveira)
(Carlos Mota de Oliveira)
segunda-feira, março 20, 2006
Noites Fellinianas
Cabelos d’ouro sobre pele d’ébano, cortinas vermelhas em tábuas amarelas, odores a canela e a cannabis, um cow-boy a galopar numa guitarra garrida e uma actriz com um olhar a preto e branco.
quinta-feira, março 16, 2006
Bestiário de Plástico
Um olhar batráquio atrás da porta, um espelho que reflecte o gato e uns peixes a pender do lustre.
quarta-feira, março 15, 2006
Voos Cancelados
“Todos aqueles que nos primeiros dias de Março perscrutaram atentamente o céu ficaram desapontados. Este ano as andorinhas chegarão atrasadas, devido a uma greve dos controladores de voo.”
(Jorge de Sousa Braga)
(Jorge de Sousa Braga)
terça-feira, março 14, 2006
segunda-feira, março 13, 2006
Arquitectura Melada
O delgado fio de mel escorria, muito suavemente, até recortar todo o tom de morango do esguio telhario da praça alfacinha...
terça-feira, março 07, 2006
Vadia Língua
Um olhar denso como cimitarra turca pousa suavemente sobre as sempre soltas pérolas da tagarelice europeia.
segunda-feira, março 06, 2006
quinta-feira, março 02, 2006
Delicada Amizade
Sólida como um fio d’aço, valiosa como filigrana antiga, frágil como cabelo longo...
quarta-feira, março 01, 2006
Prado de Pano
Um D’Artagnan de rolha passa toda a noite a trotar na mesa da esverdeada imaginação de um menina...
terça-feira, fevereiro 28, 2006
segunda-feira, fevereiro 27, 2006
domingo, fevereiro 26, 2006
Minúsculo Basquetebolista
“Estendeu os braços e tentou chegar a Deus, tentou, pelo menos, tocar-lhe nos pés, pedir-lhe uma salvação. Deus não respondeu.”
(João Rosas)
(João Rosas)
Entrudo Erudito
Há um ligeiro toque veneziano estampado na cara das pessoas que se cruzam connosco...
sexta-feira, fevereiro 24, 2006
Molduras aos Montes
Sólida nas paredes de velha pedra, férrea nos tons da ampla fachada, cheia de sombras densas, a casa avoenga era erguida com um só dedo enfiado na argola.
A impoderabilidade de uma mera nuvem abatia-se, sem prévio aviso, com seu rectângulo de madeira e seu peso de bigorna, sobre o dorido sapato da moça.
Distraidamente, o leilão prosseguia...
A impoderabilidade de uma mera nuvem abatia-se, sem prévio aviso, com seu rectângulo de madeira e seu peso de bigorna, sobre o dorido sapato da moça.
Distraidamente, o leilão prosseguia...
quinta-feira, fevereiro 23, 2006
Heranças Complicadas
"Não me coube em herança qualquer deus, nem ponto fixo sobre a terra de onde algum pudesse ver-me. Tão pouco me legaram o disfarçado furor do céptico, a astúcia do racionalista ou a ardente candura do ateu."
(Stig Dagerman)
(Stig Dagerman)
quarta-feira, fevereiro 22, 2006
Memórias Gastronómicas
Enquanto permanecia a eterna tagarelice, havia um peixe de recordações, com suas escamas de argentinas moedas, que continuava a ser grelhado aromaticamente no disco do pôr do sol.
terça-feira, fevereiro 21, 2006
Dias Trocados
A risonha brisa marinha, mesmo com seu sotaque de longínquas montanhas, abre a cortina à manhã da semana.
segunda-feira, fevereiro 13, 2006
Asas Coloridas
Uma borboleta com mais cores que o arco-íris persegue-nos em sonhos a preto e branco com um olhar tão severo como o daquele famoso saxofonista que já só serve para forrar uma parede de lâmpadas minúsculas e de estrelas desmesuradas.
quinta-feira, fevereiro 09, 2006
Céus Confusos
Uma nova estrela d’ouro e um outro planeta escarlate caíram, com a força de uma pincelada de Van Gogh, numa carta celeste bem mais velha que Copérnico.
quarta-feira, fevereiro 08, 2006
terça-feira, fevereiro 07, 2006
Duplo Erre
Deambulava, como uma cega bússola ou uma alma desnorteada, da romã maçónica para o católico relicário e, depois, retornava, sem nunca se deter em qualquer dos dois erres.
Arre!
Arre!
sexta-feira, fevereiro 03, 2006
Risonho Nevoeiro
O véu madrugador da neblina piscou o olho, num misto de espanto e cumplicidade, quando entrou numa cela de gargalhadas livres e, depois, numa praça de fantasistas desejos infantis.
quinta-feira, fevereiro 02, 2006
Velhos Antiquários
Um olhar pelintra passeia-se entre dentes d’elefante rendados, ponteiros de bolso e de cuco, Senhoras de sacras vestes, floretes & sextantes, tinteiros para aparos d’outros tempos, missais & oratórios, dourados ou azuis em porcelana, espelhos da cidade dos Doges, mesas para guerrear bispos contra torres.
quarta-feira, fevereiro 01, 2006
Multidão Madrugadora
“Era cedo pelos padrões teatrais, mas as ruas já fervilhavam de gente. (...) Prestidigitadores e acrobatas; moedeiros, ratoneiros e trampolineiros; dançarinos, rabequistas, larápios e burlões, vagabundos de todas as espécies. Três gerações de tunantes engrossavam o magote.”
(Louise Welsh)
(Louise Welsh)
terça-feira, janeiro 31, 2006
segunda-feira, janeiro 30, 2006
Bagatelas Contemporâneas
Velas brancas deslizam num rio manso d’ideias com a mesma fluidez com que os cartões de crédito tiram dinheiro dos bancos...
quinta-feira, janeiro 26, 2006
Sonora Cavalgada
Em plena avenida ampla, uma cavalgada das valquírias, sem qualquer donzela loura nem um só corcel garboso. Apenas as notas de Wagner a saltitarem no bolso do telemóvel...
terça-feira, janeiro 24, 2006
Pensar Futuro
Cinza no tempo, depois do sol inundar pupilas; searas com fogo, colhido que foi o trigo da metáfora; flores sem viço, já esquecidas do equinócio de Março; lágrimas miúdas de menina, a estragar-lhe a face d’encanto..
E, lá ao fundo, há um gigantesco ponto de interrogação plantado no horizonte.
E, lá ao fundo, há um gigantesco ponto de interrogação plantado no horizonte.
quinta-feira, janeiro 19, 2006
Época de Apostar
“Tinha a duquesa o costume de fazer com ele apostas extravagantes, mais ainda quando desejava o dinheiro de que o bom homem tinha prazer em separar-se, pois estava perdidamente enfeitiçado por tão sedutora mulher.”
(Paul Scarron)
(Paul Scarron)
quarta-feira, janeiro 18, 2006
Jardinar Gente
A flor gorda como modelo de Botero nem assim enchia o comboio onde se misturavam cachecóis gelados e escuros óculos de sol.
terça-feira, janeiro 17, 2006
Atrevida Ignorância
Quando os tímpanos simplórios escutam conversas filatélicas, pensamentos matemáticos ou discussões hegelianas, e se vêem obrigados a cerrar os lábios palradores, migram logo a sua fanfarronice para a tertúlia do lado.
domingo, janeiro 15, 2006
Traições Poéticas
Aquela poliglota de botequim, que gostou tanto de ler Borges em francês, apreciará versos de Rimbaud em castelhano?
sexta-feira, janeiro 13, 2006
Reminiscências
Um fio de memória começa a bordar, no azul limpo da manhã, uns caracóis negros de menina.
quinta-feira, janeiro 12, 2006
Madrugar
O osso descobre que dormiu gelado, uma campainha de porta imita o despertador e um final de verso esfumou-se como os sonhos.
terça-feira, janeiro 10, 2006
Absurdo Quotidiano
O macaco, empoleirado no acordeão em habilidades de papagaio, mendigava uma moeda para o seu animal de estimação: o ceguinho.
segunda-feira, janeiro 09, 2006
Espírito do Sítio
Há mansões fantasma e choupanas risonhas, palacetes austeros e cubículos simpáticos. Afinal, quem repara nos tiques decorativos e nas taras dos moradores quase podia dizer que cada casa é um rosto de gente.
domingo, janeiro 08, 2006
Conversas de Salão
A muralha de palavras, marteladas em tom tonitruante para apagar os timbres que não incomodam a vizinhança, acaba desfeita pela catapulta da razão.
sábado, janeiro 07, 2006
Trim!
Uma longuíssima fila de despertadores, com todos os ponteiros desalinhados, não pode assustar o divertido nascer da noite.
terça-feira, janeiro 03, 2006
Ressaca com Datas
As borbulhas de champanhe nas ondas do mar embriagam devagarinho a manhã ainda adormecida.
terça-feira, dezembro 27, 2005
Oscilações
Uma singela lágrima celeste fez estremecer toda a renda solarenga que se foi tricotando nos vagares da manhã.
segunda-feira, dezembro 26, 2005
sexta-feira, dezembro 23, 2005
Maldita Surdez
Um clamor de timbres e um coro de gargalhadas adubam a conversa com uma boca cheia de nadas.
quinta-feira, dezembro 22, 2005
In Sónias
No meio do furacão das ondas de lençol e dos disparos de canhões de comprimidos, o sonhador furou a tormenta daquela noite de pesadelos, sempre com a mente na sua Dulcineia, que, neste nosso tempo, responde pela graça de Vanda ou Sónia.
quarta-feira, dezembro 21, 2005
Micro-urbanismo
A paisagem está repleta de papéis com lantejoulas, fitas escarlates, laços com poalha d’oiro...
segunda-feira, dezembro 12, 2005
sábado, dezembro 03, 2005
Adornos Naturais
A noite precavida, de gorro bem enfiado, sem saber como, ficou com duas gotas penduradas nas orelhas à laia de brincos....
sexta-feira, dezembro 02, 2005
Catálogo de Partidas
Partir pedra à picareta, partir a cabeça com uma charada, partir de barco em viagem....
quinta-feira, dezembro 01, 2005
Zombeteiro Calendário
Manhãs de geada, tardes torradas, sardinhas gordas, suínos esventrados, marés risonhas, neves eternas, filas d’impostos, ordenado dobrado, terças mascaradas, dias de chorar finados, quaresmas e ramadões, flores que amarelam, folhas que acastanham, óculos escuros esquecidos, gabardinas naftalinadas, efemérides a respeitar, santos feriados, mês das cerejas, época das vindimas,natais de cada um, sacramentos por convite, gotas de suor, bátegas de chuva...
quarta-feira, novembro 30, 2005
terça-feira, novembro 29, 2005
Gente d’Outrora
Arrimou o juízo à bengala, retirou o boné das memórias e encomendou um almoço à moda antiga.
segunda-feira, novembro 28, 2005
sexta-feira, novembro 25, 2005
Janelas de Desejo
Casario arco-íris, velas ébrias, gargalhadas canoras, escamas prateadas, nacos de memórias, reflexos d’oiro, esboços de sonhos – afastar a cortina e mirar o rio...
quinta-feira, novembro 24, 2005
quarta-feira, novembro 23, 2005
domingo, novembro 20, 2005
sábado, novembro 19, 2005
quarta-feira, novembro 16, 2005
Crono-Fobia
Temendo a fuga das horas, levava sempre um relógio de parede incrustado na mala de viagem.
terça-feira, novembro 15, 2005
segunda-feira, novembro 14, 2005
Exagero Publicitário
A negra silhueta do touro recortada contra as nuvens da paisagem não era prenúncio de qualquer tauromaquia celestial....
sexta-feira, novembro 11, 2005
Sem Asas
Um cisne iluminado na parede, uma dúvida que pousa no espírito, um bule de porcelana quebrado. Em suma: uma trindade kitsch.
quinta-feira, novembro 10, 2005
Folha Vazia
Uma moeda sem cara, uma lâmpada fundida, um rasgão em forma de roupa, uma voz sem palavras, uma caneta de tinta branca – eis um ténue fio de nada.
quarta-feira, novembro 09, 2005
Gente Colorida
Um grão de canela na pele, um tom de palha no cabelo, um morango nos lábios... A beleza – como a inteligência! – ignora os conceitos de raça e de bandeira.
domingo, novembro 06, 2005
Surdos Funcionais
O cachimbo a fumegar ideias inteligentes encharcou o salão de palavras sábias. Mas o ronronar pesado das conversas miúdas inundou quase todos os tímpanos com a cera própria deste tempo.
sábado, novembro 05, 2005
Torre de Controlo
Um olhar com asas, um jacto de luz, um pavão de pedra – e um manto de nevoeiro a cobrir o aeroporto...
sexta-feira, novembro 04, 2005
Almas Inquietas
Um reflexo de prata, uma nódoa de café, um pingo de tinta – há sempre qualquer coisa a manchar a alvura do dia.
quinta-feira, novembro 03, 2005
Binóculos de Camarote
Uma vez por outra, nem que seja por engano, apetece mirar o longe e ver o horizonte com um qualquer rasgão divertido.
quarta-feira, novembro 02, 2005
terça-feira, novembro 01, 2005
Extravagante Coleccionismo
Com tantos cromos despreocupados a passear nas ruas e nos becos e nas praças só falta mesmo aparecer por aí o meticuloso dono da caderneta.
segunda-feira, outubro 31, 2005
Inútil Kant
Uma angústia de caracóis minúsculos, que se exprime num sorriso de anjo barroco ou em lágrima gorda como pérola, depressa extermina argumentos cartesianos, razões kantianas, certezas saloias.
sexta-feira, outubro 28, 2005
quinta-feira, outubro 27, 2005
Saídas da Ostra
Smokings à antiga, bustos balzaquianos, silêncio de calar mosca atrevida. De súbito, como se um granizo nas vidraças apagasse os chopins de salão, a pianista interrompeu o recital. As jovens pérolas, que fugiram do colar, saltitavam agora pelo marfim das teclas.
quarta-feira, outubro 26, 2005
Época das Gotas
Em plena cavalgada de nuvens pardas, plúmbeas, pretas alguém deixou cair uma ingénua gota de verde...
domingo, outubro 23, 2005
Manias Avulsas
Aspergia a mesa com gotas de champanhe antes de estender a toalha, como se a baptizasse para cada banquete.
sábado, outubro 22, 2005
Fiat Lux
Clarificaram a copa das árvores ao correr da noite, indiferentes à luz do sorriso de todos os palhaços divinos.
Fiat Lux
Clarificaram a copa das árvores ao correr da noite, indiferentes à luz do sorriso de todos os palhaços divinos.
sexta-feira, outubro 21, 2005
Centro de Mesa
Plantaram uma cerejeira no centro de uma mesa de jantar para, na estação propícia, poderem trautear Le Temps des Cerises...
terça-feira, outubro 18, 2005
Cefaleia Comum
Leões que cospem pragas aziagas como se fossem vulgares jactos de água, girassóis que espetam lapelas para machucar a alma, palavras sem dicionário que nos comem a orelha. Em suma: uma trovoada na testa.
segunda-feira, outubro 17, 2005
Fruta d’Época
Enviaram-me uma romã para o telemóvel. Mas não posso provar essa metáfora outonal. Só aprendi a trincar, entre duas chamadas, fruta às fatias, aos gomos, às talhadas.
sexta-feira, outubro 14, 2005
Olhos Sedentários
Quando aquela pestana abandonou a pupila para se lançar numa viagem solitária pelos caminhos da Mancha nunca imaginou os riscos que corria: uma repentina rajada de vento era bem capaz de a atirar até Ítaca; um traiçoeiro jacto de mangueira era suficiente para a fazer mergulhar em busca da Atlântida.
quinta-feira, outubro 13, 2005
Anatomias Musicais
Uma linha de sax tão pouco ondulada como uns seios de escultura pequena, um coro de sorrisos que segue as notas saltitantes de uma pauta alegre, uma colecção de andares que se movem com a convicção do piano bem martelado. Surgirá daí alguma melopeia que mereça girar em forma de CD?
quarta-feira, outubro 12, 2005
Breton-adas
Uma catedral adornada com pérolas salgadas, um mar de caracóis femininos a perturbar o sossego das sereias e uma floresta de árvores com peixes-folhas – como se toda a frase se pudesse escrever numa singela escama de prata.
sábado, outubro 08, 2005
sexta-feira, outubro 07, 2005
Fragrâncias Nocturnas
Uma brisa de cannabis perfumava a praça feita de piercings decotados e de tattoos musculosos.
quarta-feira, outubro 05, 2005
Tricolor
Um telhario vermelho, um esverdeado de ramos e, depois, um azul marinho. A multidão de gaivotas, pousada diante da linha de espuma, parece aguardar um certo cargueiro ou um qualquer paquete.