Molhados, irritados, atrasados, faziam sinal, mas o autocarro, vazio de gente, não se detinha na paragem. Os passageiros discutiam. Havia quem jurasse ter visto as coisas mais bizarras: fogareiro e frigorífico, colchão e cadeiras, leite e livros, guarda-chuva e secador de cabelo, gato e gaiola...
O motorista tinha desviado o 59 para mudar de casa!
sexta-feira, janeiro 11, 2008
quarta-feira, janeiro 09, 2008
Cinemas d’Olvido
Pirâmides de sal em paisagem de memória, como se as juntas de bois lavrassem o passado, as redes a remos pescassem o antigo...
terça-feira, janeiro 08, 2008
Fé e Fumo
Uma multidão de gente pura: fariseus bíblicos e talibans destes tempos, beatas de sacristia e histéricas dos ginásios, bufos desempregados pela extinção das polícias políticas, varredores de piriscas e farejadores de incenso, cocainómanos de pulmão limpo e motards de escape livre, negociantes de véus e de burcas, bufarinheiros de santinhos e fanáticos do jogging ...
E, no entanto, ninguém o impedia de mergulhar na sua desejável, confortável, agradável nuvem de nicotina.
E, no entanto, ninguém o impedia de mergulhar na sua desejável, confortável, agradável nuvem de nicotina.
sexta-feira, janeiro 04, 2008
sexta-feira, dezembro 21, 2007
Lunários & Etc
Passeava a sua sombra nas vésperas da chegada do bissexto.
Pesava a obra alheia ao fechar as folhas do último almanaque.
Pesava a obra alheia ao fechar as folhas do último almanaque.
quinta-feira, dezembro 20, 2007
Barrocos da Quadra
Um pouco mais de canela e será doce como sorriso de querubim em nicho de templo, em vitrina deste tempo.
quarta-feira, dezembro 12, 2007
segunda-feira, dezembro 10, 2007
Iconoclasta de Dezembro
Quebrava a canela e demais especiarias e calava os querubins mais especiais.
sexta-feira, dezembro 07, 2007
Falsas Gémeas
Sorria palavras como quem confia em textos místicos.
Cuspia frases como quem cita livros malditos.
Cuspia frases como quem cita livros malditos.
quinta-feira, dezembro 06, 2007
quarta-feira, dezembro 05, 2007
quinta-feira, novembro 29, 2007
terça-feira, novembro 27, 2007
Vícios & Ofícios
Caça-toupeiras, papa-hóstias, borra-papéis, arranca-dentes, alimpadores de barretinas, coça-esquinas, arranhadores de latim & etc – que Rabelais enumerava mais umas dezenas.
quinta-feira, novembro 22, 2007
Antiquices d’Almanaque
Calendários esquecidos, velhas novidades, farrapos de versos, sugestões inúteis, estranhas geringonças, fatais farmacopeias, heróis d’antanho, extintas romarias, cortesias em desuso, memórias de mausoléu – o deleite do leitor.
quarta-feira, novembro 21, 2007
Tontices & Outonices
Um naco de azul a desafiar um sol já pouco agasalhado. E um bando de saudades das primaveris andorinhas.
terça-feira, novembro 20, 2007
segunda-feira, novembro 19, 2007
sexta-feira, novembro 16, 2007
quarta-feira, novembro 14, 2007
terça-feira, novembro 13, 2007
Fragrâncias Insulares
“Faróis de sal desviam para longe
o perigoso aroma das amêndoas.”
(João Villalobos)
o perigoso aroma das amêndoas.”
(João Villalobos)
segunda-feira, novembro 12, 2007
Armando Rafael
“Tu já partiste, eu não tardarei.
Aos corvos deixemos o que resta.”
(Eugénio de Andrade)
Aos corvos deixemos o que resta.”
(Eugénio de Andrade)
quarta-feira, novembro 07, 2007
Sábia Mão
Aqueles dedos delicados, além de harmonizarem tons em telas e temperos em tachos, sabiam sarar maleita e enxaqueca.
terça-feira, novembro 06, 2007
quarta-feira, outubro 31, 2007
M & M & M
Um muro de murmúrios modernos emudecia-lhe as suas magníficas memórias de musas imaginárias e de museus imortais.
segunda-feira, outubro 29, 2007
sexta-feira, outubro 26, 2007
Ver & Calar
A janela espreitava à pestana, mas a porta não podia falar porque os lábios estavam cerrados.
terça-feira, outubro 23, 2007
sexta-feira, outubro 19, 2007
Risonha Tipografia
Andava sempre atrás de uma letra vadia, mas nunca lhe fez a emboscada tantas vezes imaginada. E morreu sem completar o alfabeto.
quarta-feira, outubro 17, 2007
Utopias Nocturnas
Um saber de bagatelas, uma promessa de sorrisos, um vapor licoroso... Depois, acordou o sol e despertou o galo.
terça-feira, outubro 16, 2007
quinta-feira, outubro 11, 2007
Nostalgias Breves
Naquela noite antiga cantarolavam o tempo das cerejas como se os tons d’encarnado fossem um arco-íris.
terça-feira, outubro 09, 2007
Olhar Dual
Um duplo oriente feminino martelou-lhe delicadamente a porta d’entrada, como se a campainha fosse um espírito ou um espião. Ao mirar um dos olhares teve sonhos eróticos com perfumes de cerejeira. Mas o outro par de pupilas oblíquas palrava de castas divindades envoltas em incenso e capazes d’o livrar do seu pecado ocidental.
Fechou logo porta e pálpebras!
Fechou logo porta e pálpebras!
quinta-feira, outubro 04, 2007
Oráculo Distraído
Calculava os minutos do relógio futuro com uma balança de velha mercearia. E enganou-se na hora da sua morte.
Há pianos que descem do telhado sem avisar!
Há pianos que descem do telhado sem avisar!
quarta-feira, outubro 03, 2007
terça-feira, outubro 02, 2007
segunda-feira, outubro 01, 2007
sexta-feira, setembro 28, 2007
Rimas Roucas
O encenador encantava. O desenhador desafiava. O chofer chalaceava.
Mergulhada naquela nuvem de galanteios, a donzela hesitava. Depois, mirou o triângulo de vozes em seu redor e retorquiu:
- Ai! Se eu pudesse, tanta dor vos dava!!!
Mergulhada naquela nuvem de galanteios, a donzela hesitava. Depois, mirou o triângulo de vozes em seu redor e retorquiu:
- Ai! Se eu pudesse, tanta dor vos dava!!!
quinta-feira, setembro 27, 2007
Fiel Café
Naquela manhã, sem explicação aparente, um pequeno grão de futuro agitou-se o sorriso sempre enfezado. Tremeu ligeiramente os lábios já acordados e decidiu, como era seu hábito, beber novo café.
quarta-feira, setembro 26, 2007
Detestável Invernia
Ameaça já retornar o frio. E, depois, virá a estação das chuvas, primas gordas das lágrimas pequenas; o tempo desses escuros que exigem velas fumegantes; a época dos arrepios, que tapa os erotismos do estio.
Longos meses até ao regresso das andorinhas.
Longos meses até ao regresso das andorinhas.
segunda-feira, setembro 24, 2007
Sem-Riscar
Espreitava ávido aquela pupila d’água, que podia ser de Circe ou de Penélope. E calava a voz. Temia tanto a beladona que jamais saboreava o mel.
Reviver Saint-Malo
“Já nada em nossos bolsos pesa nem pecados
de novo estamos disponíveis para a primavera
e muito pequeninamente adormecemos”
(Ruy Belo)
de novo estamos disponíveis para a primavera
e muito pequeninamente adormecemos”
(Ruy Belo)
sexta-feira, setembro 21, 2007
quarta-feira, setembro 19, 2007
Vida Armadilhada
Mil estrondos vermelhos, uma multidão de estilhaços e incontáveis arrepios de susto. A aziaga queda da telha rasara-lhe a orelha com intuitos homicidas. Também ninguém o mandara desviar antes o pé firme do alçapão que se abriu sem qualquer aviso.
terça-feira, setembro 18, 2007
Bizarra Criatura
Tinha o hábito de cismar entre marfins coloniais e púrpuras sacras, imaginava perfumes tão almiscarados que matavam narinas e desenhava cartografias náuticas para bem se marear em terra. Além disso, em vez de adágios ou adagas, dinheiros ou donzelas, estampas ou exemplos, coleccionava fobias e folias.
sexta-feira, setembro 14, 2007
Vapor d’Álcool
Escarlateava a silhueta naquele labirinto de vozes coloridas, numa cacofonia de lanternas perfumadas, naquela contabilidade de erotismos fumegantes.
segunda-feira, setembro 10, 2007
quarta-feira, setembro 05, 2007
Aves e Vindimas
“Qual canto de torcaz quando a tempestade espreita – o ar polvilha-se de chuva, de sol fantasmagórico -, eu acordo lavado, derreto ao elevar-me; vindimo o céu noviço.”
(René Char)
(René Char)
Eterno Iconoclasta
Na esquina das orações, em vez de soltar uma lágrima por cada conta do rosário bento, sorria ao campo de papoilas.
terça-feira, setembro 04, 2007
Mistério Singular
Queimava cigarros tão finos como os sorrisos mais elegantes, enquanto mirava a multidão num tom de azul e soltava uma poalha de ouro sobre o desejo da noite.
segunda-feira, setembro 03, 2007
Vozes Caladas
Mergulhava nas noites solitárias a perseguir utopias, esperando que, antes do triste apagar das luzes, desabrochasse uma qualquer conversa viçosa onde sempre se cultivavam daninhos silêncios.
sexta-feira, agosto 31, 2007
Riscos Catárticos
Esquissava veleiros sem cessar, perfis de cidades em cascata, rostos de sorriso envergonhado...
E, assim, evitava o divã dos discípulos de Freud.
E, assim, evitava o divã dos discípulos de Freud.
quinta-feira, agosto 30, 2007
Escuridão Preguiçosa
Apercebeu-se que, naquele tempo de greve das oliveiras, só havia uma lamparina no fim do horizonte.
Levantou-se, então, do sofá preferido do gato e lá foi consertar os fusíveis.
Levantou-se, então, do sofá preferido do gato e lá foi consertar os fusíveis.
terça-feira, agosto 28, 2007
Negros & Claros
Trocou a nuvem de chumbo por outra de algodão. Afinal, tanto trajava a alma de lutos como a vestia de alegrias.
terça-feira, agosto 21, 2007
sexta-feira, agosto 17, 2007
quinta-feira, agosto 16, 2007
Paisagens Pisadas
Vermelho mar, verdes colinas, tint’azul n’horizont...
A cada nova página volvida entre insónias surgia mais um destino a mergulhar no sono.
A cada nova página volvida entre insónias surgia mais um destino a mergulhar no sono.
sexta-feira, julho 20, 2007
Desarte Venatória
A perdiz saltitava altiva e, tonta como loura de anedota, conseguia escapar àquela gargalhada que a sonhava ver na cozinha.
quinta-feira, julho 19, 2007
quarta-feira, julho 18, 2007
Pré-Noite
Hesitando entre os azuis e os ocres, o rio entardecia a ondular risadas soltas e nostalgias engaioladas, como se a sua ponte fosse uma utopia do passado.
terça-feira, julho 17, 2007
sexta-feira, julho 13, 2007
Memória de Miragens
Eclipsava-se da vista durante horas sem peso, semanas sem conta, décadas sem calendário, até se esbaterem os contornos do sorriso, o brilho das pupilas, o timbre da conversa.
quinta-feira, julho 12, 2007
Fobias Fatalistas
Temendo o olhar de serpente ou de hipnose ou de lascívia, a dócil donzela de folhetim só conseguia namorar ao telefone.
quarta-feira, julho 11, 2007
sexta-feira, julho 06, 2007
Culto da Aparência
Iluminava a capitular com mil arabescos. E, depois de perder dias a desenhar essa letra primeira até fazer corar de modéstia, nas suas sacras tumbas, os monges copistas anteriores a Gutemberg, escrevia o texto em rápidos minutos. Era o recordista absoluto dos atentados à ortografia.
quinta-feira, julho 05, 2007
Fútil Inútil
Deteve, por um instante, o nervosismo da tesoura. Depois, decidiu-se. Recortou a notícia entre as vidas alheias. E, como qualquer simpático cínico, sorriu da fama daquelas lágrimas.
quarta-feira, julho 04, 2007
Fantasias Domésticas
Vivia num sótão, entre baús de quinquilharias sem cadeado e fardos de jornais atados a corda, pilhas com três gerações de memórias e trastes avulsos sem genealogia, restos de cordas de falsos stradivarius e nacos de prosas de genuínas assinaturas.
Ao ligar a ventoinha, fugiram papéis amarelos, apareceram retratos a sépia, marcharam borboletas de lata, voaram soldados de chumbo, tartarugaram carros de corrida, lebraram muralhas de castelo.
Ao ligar a ventoinha, fugiram papéis amarelos, apareceram retratos a sépia, marcharam borboletas de lata, voaram soldados de chumbo, tartarugaram carros de corrida, lebraram muralhas de castelo.
sexta-feira, junho 29, 2007
Olhares-Veleiros
A pupila largava âncora sobre o jantar e a toalha dos marinheiros naufragava entre figos e fumos.
quarta-feira, junho 27, 2007
Na Mouche
A asa de vento disparava um voo e uma vertigem e acertava sabiamente naquela difusa luz longínqua.
sexta-feira, junho 22, 2007
Jantares d’Amigas
Polvilhavam de paprika a conversa, manchavam os retratos com canela, largavam aguardente nos decotes.
quarta-feira, junho 20, 2007
Vieram Ventos
No seu galope garoto, amolecia as melenas das helenas, mexia os moinhos amigos, lambia lixos e luxos...
terça-feira, junho 19, 2007
segunda-feira, junho 18, 2007
terça-feira, junho 12, 2007
Cabeça ao Vento
Pousava as ideias numa toalha de piquenique. Deixava-as chilrear, melrear, pardalar. E ficava a olhar para elas como se estivesse a admirar o ponteiro de uma bússola ensandecida.
segunda-feira, junho 11, 2007
terça-feira, junho 05, 2007
Azul com Asas
A tinta negra garantia-lhe uma escrita austera como a de edital, habilidosa como a da contabilidade.
A tinta azul fantasiava-lhe as palavras, que andavam sempre a vadiar atrás das máscaras de teatro, das metáforas da poesia.
A tinta azul fantasiava-lhe as palavras, que andavam sempre a vadiar atrás das máscaras de teatro, das metáforas da poesia.
sexta-feira, junho 01, 2007
quinta-feira, maio 31, 2007
quarta-feira, maio 30, 2007
segunda-feira, maio 28, 2007
sexta-feira, maio 25, 2007
quarta-feira, maio 23, 2007
Colecção de Nadas
Refractário a catálogos obsessivos e a álbuns minuciosos, apenas coleccionava velhos versos, farrapos de fumo, sábios sorrisos...
segunda-feira, maio 21, 2007
quinta-feira, maio 17, 2007
Ébrio Luxo
Lábios de palavras, rendas soltas, bolhas loucas...
Tinha mergulhado numa piscina de champanhe!
Tinha mergulhado numa piscina de champanhe!
quarta-feira, maio 16, 2007
terça-feira, maio 15, 2007
‘Té Já!
As aves arribavam, aconchegavam-se, adormeciam, adoravam, atardavam-se. E, depois, tornavam ao terno tépido, aos trópicos eróticos, ao entornar do eterno.
segunda-feira, maio 07, 2007
Timidez Urbana
Engolia palavras, parava o sorriso, encolhia gestos...
E como nunca iniciava diálogo com desconhecido rosto d’encantos, deixava sempre partir todas as pupilas risonhas.
E como nunca iniciava diálogo com desconhecido rosto d’encantos, deixava sempre partir todas as pupilas risonhas.
quinta-feira, maio 03, 2007
Dobro e Metade
“É uma idade interessante, vinte e dois anos; é-se então facilmente imprudente e assustadiço, porque nessa idade reflecte-se pouco e a imaginação é viva.”
(Joseph Conrad)
(Joseph Conrad)
Pobres Tempos
Até tomava pílulas para desangustiar. Em vão. Andava sempre a olhar para o relógio apressado e para a algibeira vazia...
segunda-feira, abril 30, 2007
Miar à Nuvem
O gato branco da janela vizinha lia farrapos de conversas e ronronares de gente impressos nas nuvens d’algodão ou sussurrados em voos d’aves.
quinta-feira, abril 26, 2007
terça-feira, abril 24, 2007
segunda-feira, abril 23, 2007
Vírgula Hamletiana
Meditava, cogitava, hesitava...
Era difícil deixar cair aquela vírgula no horizonte da escrita.
Era difícil deixar cair aquela vírgula no horizonte da escrita.
quarta-feira, abril 18, 2007
Fruta Escura
Ambicionava um futuro d’amoras, as cerejas do desejo, morangos d’erotismo....
Sem jeito para nada, decidiu descascar romãs.
Sem jeito para nada, decidiu descascar romãs.
terça-feira, abril 17, 2007
Chumbo & Ouro
Alquimista das conversas de botequim, transformava o chumbo derretido das letras vadias em dourados aforismos para depois colar na cara lavada do frigorífico.
segunda-feira, abril 16, 2007
Psico Retratismo
Mirava uma silhueta durante um segundo, escutava um murmúrio breve como trovão, reparava num gesto curto como o pestanejar – e logo tirava uma polaroid àquela alma.
quinta-feira, abril 12, 2007
Fino-Grosso
Numa caligrafia tão miúda como bebé de maternidade coleccionava palavras tão gordas de mistérios como abraxas ou abracadabra.
quarta-feira, abril 11, 2007
segunda-feira, abril 09, 2007
Bispos & Crocodilos
“Los naipes son muy veleidosos; una vez hicieron blasfemar a un mudo, porque de la baraja puede salir cualquier cosa, ya se sabe, desde un cocodrilo a un obispo.”
(Manuel Vicent)
(Manuel Vicent)