domingo, outubro 02, 2005

Obsessões

Uma filigrana d'erro ofusca a joalharia d’elogios.

sábado, outubro 01, 2005

Saudades de Sonhar

Por vezes, os lençóis assentam tão levemente sobre a brevidade do sono que quase nem se sente o cheiro da almofada.

sexta-feira, setembro 30, 2005

Tinta Mágica

O aparo, ao comandar o pulso, esboça barbatanas de peixes que mais parecem pássaros, rostos com fechaduras de porta, nacos de cidade que até espantariam Calvino.

quinta-feira, setembro 29, 2005

Intranquilidades

Nervos eriçados, como se fossem músculos de gato, escrevem o quotidiano numa caligrafia tão pouco firme que até parece saída dos distantes bancos d’escola.

quarta-feira, setembro 28, 2005

Era Uma Vez

Umas abelhas búlgaras, que recusavam debruçar-se sobre os tabuleiros dos xadrezistas de jardim, zumbiam em cirílico por cima do almoço.

Pinturas Anónimas

Riscaram o céu com branco de nuvens – o mesmo tipo de gesto com que se pintam laranjas nas árvores do pomar.

domingo, setembro 25, 2005

Manias de Biblioteca

“Passo pelos longos corredores, de cima a baixo os livros nos seus túmulos. São milénios de balbúrdia, tagarelice infindável, filósofos, investigadores, poetas, doutores da Igreja, moralistas, juristas, políticos, algaraviada infernal, interminável algazarra através das eras – estão imóveis nos seus túmulos irrisórios.”
(Vergílio Ferreira)

sábado, setembro 24, 2005

Miniatura Óptica

Um farrapo de nuvem entra na pupila e esconde o brilho da manhã.

sexta-feira, setembro 23, 2005

Andorinha Andarilha

Arribar. Partir. Por vezes, sorrindo...

quinta-feira, setembro 22, 2005

Homem de Mármore

Um longo fio de horas em pé, esperando por um Godot qualquer, confunde a silhueta estática com a rígida estátua vizinha.

terça-feira, setembro 20, 2005

Palavras Poderosas

Na franja do lençol, em caligrafia garatujada, uma pequenina bruxa enxota-nos os sonhos matinais.

segunda-feira, setembro 19, 2005

Evidências

A beleza de um riso dispensa adjectivos.

Borracha Urbana

Afundaram um automóvel de colecção num aquário seco de peixes com a mesma facilidade com que se risca uma palavra mal escrita em folha de papel.

sexta-feira, setembro 16, 2005

Impressões Digitais

“As suas mãos esguias, delicadas e nervosas fazem pensar no póquer ou na roleta,mas também em sapientes contactos com porcelanas, pergaminhos, instrumentos musicais, e com meias femininas, sedas, rendas e fechos duros de colares.”
(Fruttero & Lucentini)

Asas Sossegadas

No tapete de águas verdes, como se a realidade imitasse o mar plástico de Fellini, e perante a alheada atenção das casas vestidas de pijama, a gaivota empoleirada num mastro parecia meditar sobre Veneza.

quinta-feira, setembro 15, 2005

Luares

Curiosa como pupila infantil, a lua espreitava os pensamentos que andavam a passear pela varanda...

quarta-feira, setembro 14, 2005

Dourados Dias

Entardecer d’ouro num’alma plúmbea.

Fantasia com Fiama

Embarquei um verso da Fiama num eléctrico com carris que pisavam uma lua feita de pautas e toda a hera que canta nos jardins.

domingo, agosto 28, 2005

Nódoa Branca

As palavras esqueceram-se de chegar ao aparo da caneta...

sábado, agosto 27, 2005

Maniento Galicista

Saboreava, com imensos requintes, umas singelas maçãs da terra.

sexta-feira, agosto 26, 2005

Jardim de Especiarias

Uma gota de solidão a temperar a sopa.

quinta-feira, agosto 25, 2005

Insónias Marinhas

Os lençóis da cor do mar agitam ondas de ideias, espumas de projectos, tempestades de pesadelo, até a exausta lua assentar, definitivamente, a bonança do sono.

quarta-feira, agosto 24, 2005

Brincos com Música

Nem uns brincos em forma de sax com som agrediriam tanto os tímpanos como os músicos daquele botequim.

terça-feira, agosto 23, 2005

Vagabundo Agrilhoado

Um avião com tamanho de fósforo voa quase cego em torno da lâmpada central. Faz de conta que a sua rota saltou da geografia para se anichar nos desejos adiados de um qualquer vagabundo agrilhoado...

segunda-feira, agosto 22, 2005

Vidros Quebrados

“Porque o deserto tem de tempo a areia entornada de milhões de ampulhetas partidas”
(Hermínio Monteiro)

Tradição vs Tradução

O mar ficou com um horizonte difuso na tão matinal como vernácula névoa atlântica. Até parece que também se vão esfumando as palavras no seu incessante trânsito entre as línguas mortas, os dialectos moribundos e os idiomas triunfantes.

terça-feira, agosto 16, 2005

Ampulhetas Agitadas

As horas nem sempre cabem inteirinhas nos ponteiros do relógio...

domingo, agosto 14, 2005

Cliché de Mestre

Esticado à sombra, apenas... Na pose daquele corpo feminino que Alvarez Bravo, ao conceber “La buena fama durmiendo”, deitou ao sol.

sábado, agosto 13, 2005

Fantasias

O sujeito era um pé descalço em plena sapataria da inteligência.

sexta-feira, agosto 12, 2005

Costumes em Desuso

“(...) um doutor lhe fez sua arenga costumada e os oficiais lhe apresentaram as chaves em um bacio de prata.”
(Gaspar Correia)

Visões & Ilusões

Encostado ao fundo, qual veleiro sem âncora pintado numa parede, descortino o vulto antigo, como se Lawrence Ferlinghetti estivesse ali de atalaia à porta, a conferir os jovens decotes femininos, os hirsutos penteados dos rapazes, a garabulha de vozes que silencia telemóveis, a sucessão monótona das bebidas louras, a desordem das cadeiras...

quinta-feira, agosto 11, 2005

Antigos Ecos

Um sopro, um assobio, um chilreio – qualquer coisa me traz de volta a silvestre melodia...

quarta-feira, agosto 10, 2005

Olhares Míopes

No meio da algazarra, como se fosse um improviso de jazz, uma pupila vadia brilha mais que a lua nova.

terça-feira, agosto 09, 2005

Resquício de Conrad

“Mas trago notícias de como é que está no ‘coração das trevas’, nas fronteiras do vaivém, nos túneis da precaução, nas rotas da má lembrança, e da boa, também, se às vezes fecho os olhos e é o mesmo, o cheiro, e eu tinha então vinte anos e andava a ver se encontrava a ponta do meu fio, na meada.”
(Ruy Duarte de Carvalho)

Absurdas Rimas

“As muçulmanas”, indagavam uns inocentes caracóis ao repararem na proliferação de cabelos escondidos e rostos velados, “são diferentes de nós, as humanas?”

segunda-feira, agosto 08, 2005

Misterioso Verde

“Os ambulantes transportam as suas cargas mágicas dos mais diversos objectos de vertu, desde os macios tapetes de Xiraz e do Balochistão até aos baralhos de cartas de Marselha; incenso de Hedjaz, contas verdes contra o mau-olhado, pentes, sementes, espelhos para gaiolas, especiarias, amuletos e leques de papel... a relação seria infinita [...].”
(Lawrence Durrell)

Moreno Verão

Loucas lantejoulas, farrusca floresta, sol d’incêndio!

domingo, julho 17, 2005

Intervalo

Partir!!!
A única palavra que, agora, interessa...

Medievalices

“É uma época que, mais do que qualquer outra, nos aparece marcada pelas suas brancas roupagens de igrejas repletas de esculturas, mosaicos ou vitrais multicolores, ourivesarias cintilantes, livros coloridos com iluminuras, marfins esculpidos, enormes portas de bronze, esmaltes, pinturas murais, tapeçarias, bordados, tecidos de variadas cores e com desenhos singulares e quadros pintados em fundo de ouro.”
(Enrico Castelnuovo)

sábado, julho 16, 2005

Sábia Ignorância

Fundiu-se o fusível. E o neurónio adormeceu…

sexta-feira, julho 15, 2005

Culto d'Absurdos

Marcar encontro com um qualquer sorriso antigo numa viela parda da memória.

quinta-feira, julho 14, 2005

Relógio Curto

Travar a ampulheta, ludibriar o calendário, inebriar a cronologia – tudo tarefas frustradas!
E, no entanto, escasseia sempre tempo para o labor, para o prazer, para a leitura, para a preguiça...

quarta-feira, julho 13, 2005

Foxtrot

As luzes mais louras quebram-se no rio pintado de escuro como se fossem palavras escritas com um qualquer dançante bâton transparente.

terça-feira, julho 12, 2005

Gralhas

As silhuetas das garrafas, as memórias das granadas, as vozes que ficam gravadas...
Tantas gravatas!

segunda-feira, julho 11, 2005

Distâncias

O clássico fio telefónico não sabe cantar sorrisos em pequenas pupilas ébrias de alegria.

segunda-feira, julho 04, 2005

Lento Horizonte

O navio que está a pisar o horizonte azul anuncia-se tão lento perante o nosso olhar como se, lá ao fundo, o comandante perseguisse, obstinado, qualquer preguiçosa tartaruga...

sexta-feira, julho 01, 2005

Azul-Vermelho

"Azul... a Terra?
Não! Vermelha... da cor da guerra!"
(grafitti)

quarta-feira, junho 29, 2005

Livros Temperados

Num tempo de decotar fantasias, os dedos continuam ainda polvilhados com o pó dos livros...

terça-feira, junho 28, 2005

Infinitos

Os versos dos Homeros e os volumes dos Prousts que não lemos são sempre mais numerosos do que as ruas das Zagrebes e as águas das Benares que nunca pisámos com o olhar…

segunda-feira, junho 27, 2005

Pintar o Globo

Os daltónicos da vida gostam de pintalgar as voltas do mundo nos tons ingénuos com que costumam ser sarapintados os cavalinhos dos carrosséis de feira.

sábado, junho 25, 2005

Artifícios

Os pontilhistas da pirotecnia, em vez da mítica tela em branco, gostam mesmo é dos céus escuros. Talvez seja porque não usam tintas d’água – riscam com tons de fogo.

quinta-feira, junho 23, 2005

Maniqueísmo Cromático

O confronto de peões num tabuleiro de xadrez, o par do bule de leite e da chávena de café, um diálogo entre um vestido branco e um vestido preto.

quarta-feira, junho 22, 2005

Tango à Tarde

Na quietude da tarde quente, enquanto o raio de sol se espreguiça na madeira no jeito de quem a quer pintar de ouro, entra-nos um tango acordeonado pela janela, como se fosse uma visita de um mosquito com bigode à Gardel…

segunda-feira, junho 20, 2005

Vendaval Mínimo

A brisa boémia agita as penas das pombas, afugenta fragrâncias fortes, saltita nas saias das senhoras...

domingo, junho 19, 2005

Celestial

“Naquele céu estão o peixe, a aurora,
A balança, a espada e a cisterna.”
(Borges)

Virgens & Unicórnios

Ao bebericar um distraído copo de leite, quando a remela ainda não abriu completamente a persiana que separa o sonho da manhã, a zombeteira imaginação da menina convence-a que a virgem capturou, de facto, um unicórnio.

sábado, junho 18, 2005

Divagações

Uma renda de espuma tricotada pelas ondas servia de cenário. Ali perto, uma cadeira de rodas dançaricava ao som de uma rabeca e, ligeiramente mais distante, um fino olhar de esmeralda furava as palavras dum gordo livro.
A pupila de Junho inventa cada tapeçaria d’imagens!...

quinta-feira, junho 16, 2005

Palavras Ausentes

Muita gente tem o pretexto e domina o contexto. Só lhe falta mesmo é escrever o texto...

quarta-feira, junho 15, 2005

Stradivarius

Uma antiga lenda doméstica garantia que aquela medium,connosco aparentada pelo apelido do marido, sentada na muito vulgar sala da braseira perfumada a bagas de eucalipto e sempre agitada por netos pirralhos, conseguiu descrever cada variação, todos os aplausos do concerto do seu filho violinista, naquele preciso momento a exibir todo o seu virtuosismo num palco além-Alântico.
Fantasias telepáticas! Até porque, em herança, ninguém ficou com qualquer Stradivarius...

terça-feira, junho 14, 2005

Ninharias Nihilistas

Um farrapo de nada foi desfraldado ao vento - como se fosse uma colgadura pendente de qualquer nuvem vadia...

segunda-feira, junho 13, 2005

Genial Champanhe

“A experiência de uma tempestade no mar, até um imbecil não a esquece e sabe contá-la; mas para uma tempestade numa taça de champanhe, é preciso o génio de Proust.”
(Leonardo Sciascia)

Heróis do Mar

Povo de marinheiros desempregados, já só brincamos com caravelas nas banheiras dos tê dois...

quinta-feira, junho 09, 2005

Visões & Versões

A palavra branco tem um sentido diferente para o pintor e para o físico, para o antropólogo e para o médico, para a lavadeira e para a noiva, para o versejador e para o jogador de lotaria.

quarta-feira, junho 08, 2005

Falsários Brilhos

Cego de sol em plena tarde, a mínima mica, qualquer lantejoula, uma singela escama, os cacos de vidro, uma vulgar fivela de farda – tudo me parece ouro!

domingo, junho 05, 2005

Mundo Venatório

Estendido o planisfério na esplanada – com um diletantismo idêntico ao da dama que adornou a lapela com três tartarugas de joalharia -, quantas ideias sobre a História se fisgam com anzol de pesca, quantos preconceitos em torno da Geografia se apanham com armadilhas para pássaros canoros.
O melhor, pois, é contar os proeminentes ventres femininos que vão percorrendo o passeio e denunciam, agora, as mais intimas noite da passada invernia. Há alguém por aí que coleccione gaiolas?...

sábado, junho 04, 2005

Velharias

“O disparate não agrada senão quando é novo.”
(Pierre Corneille)

Evidência

A onda que se agita num copo de água não faz espuma.

quinta-feira, junho 02, 2005

Risonho Mel

Os últimos dias do equinócio primaveril enchem as pupilas com um oiro que pinta as tardes demoradas, riscos que parecem hieróglifos ou runas na orla marinha, risonhos seios com seu mítico paladar a mel.
Chegou, pois, o tempo em que apetece arrumar casacos e contabilidades, panegíricos e cepticismos, tratados e moleskines.

quarta-feira, junho 01, 2005

Manias do Séc. XII

“Às vezes, quem pediu um livro emprestado, empresta-o a outro, sem pedir autorização ao proprietário, e este empresta-o a um terceiro, de modo que o proprietário acaba por não saber a quem o há-de pedir e a cadeia de empréstimos vai-se alargando de tal maneira que ninguém responde já pessoalmente pelo livro que lhe foi emprestado.” Boaventura de Bagnoregio

terça-feira, maio 31, 2005

Relojoarias

Sem se perceber a causa, o motivo, a razão, de quando em vez a nossa clepsidra deixa de estar certa com a ampulheta do Mundo.

segunda-feira, maio 30, 2005

Mania das Letras

Os fazedores daqueles hieróglifos tão belos como Cleópatra ou Nefertiti, os lapidadores que deixaram textos de pedra em todo o sítio conquistado por César e demais romanos, as capitulares carolíngias dos monges das iluminuras, a arte de escrever que os cultores do Corão espalharam de Córdoba a Samarcanda, os caracteres dos inventores do papel e da bússola e do fogo-de-artifício, o cuidado com as serifas tido por Garamond & Bodoni & demais sucessores de Gutemberg, as folhas longas dos guarda-livros lusitanos do século passado....
Quem se lembra da arte da caligrafia?

sexta-feira, maio 27, 2005

Amnésias

As barbatanas douradas, escarlates, listradas – mesmo se ainda saudosas do Índico ou de outros mares tépidos que o aquário apenas imita vagamente – já não sabem estranhar o cinza da manhã, o borrifar da morrinha, o passeio dos guarda-chuvas.

quarta-feira, maio 25, 2005

Branco & negro

O avião deixou um risco de giz no firmamento azul. O petiz riscou um aeroplano no quadro preto.
Adoram ambos desenhar...

domingo, maio 22, 2005

Equívocos

Bagas de iodo, escamas nas dunas, pérolas de robalo, camarinhas em ostras...
Perturbante maresia!

sexta-feira, maio 20, 2005

Melomanias

Uma desgarrada de arrais ou araras; um coro de arlequins ou querubins. Cada tímpano, sua melopeia.

quinta-feira, maio 19, 2005

Evasões

Gôndolas e matrioskas em papel couché; frases de Conrad ou London; posters do Machu Pichu e do Taj Mahal; estranhas palavras como Antioquia ou Ushuaia; as rotas de Marco Polo e Serpa Pinto; a escala das plantas de Anchorage ou de Samarcanda...
E nunca mais chega o tempo dos búzios e dos balões no horizonte!

quarta-feira, maio 18, 2005

Lavores

Quando a massa cinzenta parece um novelo de lã enrodilhado por gato brincalhão torna-se difícil tricotar uma nova ideia.

terça-feira, maio 17, 2005

Preferências

Espuma o mar em ondas frágeis. Saliva o discurso em palavras ocas.
Sábio silêncio!

domingo, maio 15, 2005

Filosofantil

E se, de repente, percebemos que estamos a argumentar com um Kant de sete anos? Aumentamos-lhe a idade ou voltamos a dormir?

sexta-feira, maio 13, 2005

Nocturno

Numa almofada de nata, o sono parece um vinho generoso.

quinta-feira, maio 12, 2005

Deve & Haver

Avisos avulsos, facturas desprazadas, recibos para reciclar... Há dias saltimbancos!

quarta-feira, maio 11, 2005

Poeiras

Um sorriso de momento ou de menina ou de memória paira no ar do dia e da cidade – como se a marota brisa matinal tivesse arrastado pétalas de papoilas, brincos de cerejas, bandeiras vermelhas, semáforos proibidos e lábios escarlates.

domingo, maio 08, 2005

Cintilar

Os sorrisos parecem ganhar ecos nos espelhos das palavras.

sábado, maio 07, 2005

Horizonte

Um barco de luz a cruzar o poente - e a lua escondida.

sexta-feira, abril 29, 2005

Antípodas

"(...) os velhos lacadores da China têm mãos vermelhas nos seus juncos de madeira preta; e as grandes barcas da Holanda perfumam-se de girassol.”
(Saint-John Perse)

Mudez

O velho ancião devia ter deixado o conselho, para juntar àquele seu adagiário particular: devemos dar tanta atenção às conversas dos taxistas, aos descontos dos caixeiros viajantes, às revelações dos pregadores religiosos como a um ruidoso rádio de taberna, à voz de barítono de qualquer ébrio, a um tumultuoso altifalante de feira, a uma entusiasmada arenga de comício.

quinta-feira, abril 28, 2005

Geometrias

Aquela pomba, num voo bastante insensato, descreveu um arco perfeito no nariz do veloz autocarro.

domingo, abril 24, 2005

Ecos

“O seu nome de Veneza
em Calcutá deserta”
(Marguerite Duras)

Patranha

Na paragem do autocarro, passa uma generosa meia dúzia de caravelas com rodas quando se está à espera de uma modesta traineira alada.

sábado, abril 23, 2005

Pardo

Há uma sombra, uma cinza, uma nuvem... Qualquer coisa que empalidece a paisagem.

sexta-feira, abril 22, 2005

Miragem

Asas de pássaros sobrevoam a profana cúpula envidraçada. Como se fossem querubins a pairar sobre o zimbório de catedral...

quinta-feira, abril 21, 2005

Onírico

Mergulhar nos sonhos com os tímpanos recheados de Rachmaninoff...

quarta-feira, abril 20, 2005

Preguiça

A actividade não passa, afinal, de um esforço inútil de quem não sabe descansar.

terça-feira, abril 19, 2005

Destinos

Os passos ainda não dados toldam-nos a razão, inventando mapas e bússolas, em que a agulha magnética tanto aponta para o Hermitage como para o Taj Mahal e a escala cartográfica aumenta o tango em El Viejo Almacén ou a estrada para o templo de Carnac...
Afinal, também nunca leremos todos os livros indispensáveis.

segunda-feira, abril 18, 2005

In-folios

"O seu interior mal iluminado, escuro e solene estava impregnado de um forte cheiro a laca, de cores, incenso, aromas de terras distantes, mercadorias raras. Lá se encontravam fogos-de-bengala, caixas mágicas, selos de países que já não existiam há muito tempo, estampas chinesas, anil, colofónia de Malabar, ovos de aves exóticas, papagaios e tucanos, salamandras e basiliscos, raízes de mandrágora, caixas de música de Nuremberga, homúnculos dentro de garrafas, microscópios e óculos, sobretudo livros raros e muito especiais, velhos in-folios cheios de gravuras maravilhosas e fascinantes histórias."
(Bruno Schulz)

Contas

Do ábaco ao computador, do sestércio ao cêntimo, o acto de contar moedas altera sempre a expressão de quem o faz: um sorriso nos Patinhas e Rockefellers; a angústia de um personagem de Sttau Monteiro; lágrimas secas no rosto de quem não conhece notas de valor nem natas em creme!

sexta-feira, abril 08, 2005

Pulipa

Na risonha pupila de um bebé reflecte-se um passeio inteiro: pérolas de montra, pechisbeque em caracteres chineses, jornais no escaparate, estendal de fruta, bata d'escola, nódoa em fato macaco, decotes de lantejoulas, crucifixos no interregno papal, lentes escuras contra o sol, adiposidades que a moda salienta, árvores pouco frondosas, penas de pomba, cartazes de procissão, folhetos de rave, paredes que dão dinheiro, varandas rendilhadas, tabiques d'obras, fumos d'escapes, perfumes almiscarados, odor a café moído, lixo que ofende narinas, nacos de conversas ocas, gargalhadas estrídulas, Vivaldi em versão telemóvel, as raras elegâncias, os imensos ridículos.
Um dia, pupila mais crescida, pode ler tudo sobre estes tempos nas páginas do Lobo Antunes...

terça-feira, abril 05, 2005

Ampulhetas

Escoa-se a areia, esvai-se o tempo, esgota-se a paciência, estiolam as ideias, estremece o coração, empalidece a beleza...
A ampulheta é carrasca da juventude!

segunda-feira, abril 04, 2005

Diásporas

As palavras que ecoam eternamente nos búzios – quais metafóricas campânulas das grafonolas da memória ou veros auscultadores deste tempo cibernético – são vozes herdeiras de avoengos. Dos que zarparam em orgulhosas nozes com velas benzidas para conquistar mapas ignorados; dos que embarcaram em paquetes que distinguiam os beliches com piolhos das camas para violinos.

sexta-feira, abril 01, 2005

Bruscamente

Mãos bruscas no folhear desfazem, num ápice, a frágil arquitectura de papel em que se ergue diariamente um jornal. Esses dedos desajeitados saberão cuidar de pétalas de malmequer, afagar o fugaz sorriso de bebé ou relacionar-se com qualquer outra metáfora de porcelana?