sexta-feira, dezembro 29, 2006
Amanhã & Ontem
Estendendo o novo calendário como se fosse um lavado lençol de leito, embrulhando o ano vencido como peschisbeque apenas digno de sótão envergonhado, projectou o futuro com a reconhecida precisão dos economistas e arrumou o pretérito como uma mera ficção heráldica.
quarta-feira, dezembro 27, 2006
Fantasias d'Época
Um poente de canela, um pomar d'electricidades, um sorriso de menina...
E, depois d'entardecer a doçura, de se fundirem os fusíveis, d'adormecerem os lábios, uma caravana zíngara largou âncora em terra vermelha e uma caravela do Zodíaco ergueu as rodas num oceano escarlate.
E, depois d'entardecer a doçura, de se fundirem os fusíveis, d'adormecerem os lábios, uma caravana zíngara largou âncora em terra vermelha e uma caravela do Zodíaco ergueu as rodas num oceano escarlate.
sexta-feira, dezembro 22, 2006
Cedo Erguer
Visto à lupa, o sol d’Inverno parecia-lhe maior. Mera ilusão. Apenas tinha ajustado as almofadas d’insónias aos sempre pontuais ponteiros da noite.
quarta-feira, dezembro 20, 2006
Safari no Asfalto
Disfarçadas no meio do quotidiano bestiário citadino – sempre repleto de lobos e borboletas, toupeiras e falcões, vacas e asnos, baleias e melgas, minhocas e enguias, víboras e pavões -, as duas amigas assumiam-se como caçadores de elefantes urbanos.
segunda-feira, dezembro 18, 2006
Amores Citadinos
Amava aquela cidade como se fosse uma mulher.
“Ali”, alegava, “se a memória não me atraiçoa em demasia, apaixonei-me por meia dúzia de almas…”
“Ali”, alegava, “se a memória não me atraiçoa em demasia, apaixonei-me por meia dúzia de almas…”
quinta-feira, dezembro 14, 2006
Frustrante Sísifo
Trauteava uma lengalenga, recordava um cenário, desistia de uma viagem, escolhia um poema, esquecia um beijo, comprava uma flor, apagava um desgosto, escutava uma gargalhada, honrava uma dívida, confidenciava uma amizade, rasurava uns papéis, lembrava-se de uma água-forte, soltava uma lágrima, afagava uma criança...
Com o rigor do matemático, com a minúcia do filatelista, com a utopia do filósofo, tentava sempre ir completando o puzzle da sua vida. Ensandeceu!
Com o rigor do matemático, com a minúcia do filatelista, com a utopia do filósofo, tentava sempre ir completando o puzzle da sua vida. Ensandeceu!
quarta-feira, dezembro 13, 2006
terça-feira, dezembro 12, 2006
Louvados Lavores
Bordava cada dia com palavras luminosas, certas frases com brilhos de sol, todas as vidas com fios d’ouro...
segunda-feira, dezembro 11, 2006
sábado, dezembro 09, 2006
Pensar Preguiça
Vagarento como erva a crescer em prado imenso, indecifrável como mar sanguíneo para pupilas daltónicas, distraído como conversa que jamais se reatará, o sujeito apenas preguiçava o pensamento.
quinta-feira, dezembro 07, 2006
Absurdos d’Inverno
A felina passeava-se por entre as gotas d’água no jeito diletante de quem afaga um delgado bigode gráfico.
terça-feira, dezembro 05, 2006
Canoros Cataventos
A cortina da chuva, essa descriteriosa molhadora de calçadas e de calvices, agitava-se nervosa como se fosse veludo falso de teatro nobre ou certeza vaga de ignorante dogmático.
segunda-feira, dezembro 04, 2006
sexta-feira, dezembro 01, 2006
Espelho Antigo
Mordia a memória para tentar localizar o tempo que antecedeu a epidemia de rugas…
Trocou d’espelho!
Trocou d’espelho!
quinta-feira, novembro 30, 2006
História Infantil
Descobriu o fogo domesticado, inventou o conceito da roda, desenhou o garfo de mesa. E nunca pensou em registar patentes. Também ainda se estava longe do engano de Colombo e da ganância dos descendentes do Mayflower...
quarta-feira, novembro 29, 2006
Nove Algarismos
Algumas caligrafias, mesmo as que são dignas de receitas médicas, ou certas letras, das que até podiam ser bordadas em monogramas, nunca se deixam conversar...
Aos Esses
Hesitava!
Em seu redor, o olhar risonho da celta Sónia, o busto discreto da ruiva Susana, os lábios morangueiros da zíngara Sara. Cerrou as pálpebras; despertou as pupilas.
E viu, então, o horizonte vazio...
Em seu redor, o olhar risonho da celta Sónia, o busto discreto da ruiva Susana, os lábios morangueiros da zíngara Sara. Cerrou as pálpebras; despertou as pupilas.
E viu, então, o horizonte vazio...
sexta-feira, novembro 24, 2006
Contingências de Calendário
Rendeu-se à ancestral meteorologia dos deuses e deixou o irrequieto desejo primaveril a hibernar, bem agasalhado numa película daquele chumbo invernal.
quinta-feira, novembro 23, 2006
quarta-feira, novembro 22, 2006
Cinz'Alma
Meditou sobre a agenda d’afazeres, as notícias e as efemérides da época, a partitura dos estados d’alma. E decidiu rasgar o dia sendo tão discreto como um sol d’Outono.
terça-feira, novembro 21, 2006
Agenda sem Algibeira
Número de telefone extraviado é um muro de tédios, um murro de desejo, um urro de silêncios...
segunda-feira, novembro 20, 2006
sexta-feira, novembro 17, 2006
Cirurgião d’Almas
Bisturi em riste, qual cimitarra otomana, tentava sempre extirpar o tumor do mau humor. Sem êxito. Obtinha apenas o sorriso desdenhoso dos clínicos de compêndio e a inveja dos magarefes de tripas comuns.
quinta-feira, novembro 16, 2006
Preto & Branco
Meninas lívidas disfarçadas d’anjo. Casal africano de luto trajado. No intervalo entre as duas mesas, o arco-íris...
segunda-feira, novembro 13, 2006
Eros Onírico
Por uma pálpebra entreaberta, pareceu-lhe ver o triângulo mais desejado da anatomia feminina desenhado na melhor tradição dos pintores lúbricos. Mas, logo de seguida, esquecendo tactos e perfumes, retomou o sonho...
quinta-feira, novembro 09, 2006
Alquimias de Algibeira
Tão inopinadamente como o vício de serpentear (ou de despentear) uma conversa, salta do poço do tempo uma pupila míope (ou uma tulipa mole?) que nos reconhece as feições e nos recorda os passados.
quarta-feira, novembro 08, 2006
sábado, novembro 04, 2006
Tímido Pavor
Incapaz de ousar proferir um touché nos avulsos jogos de sedução ou no melífluo mercado dos talentos, preferia desistir da esgrima da vida, do ballet que alegra o quotidiano...
quinta-feira, novembro 02, 2006
Fabulário Mentiroso
A ladina raposa saltitava entre as palavras como se fosse um laborioso filólogo em seara alheia, em capoeira vizinha.
quarta-feira, novembro 01, 2006
Meteorologia Feiticeira
Um Outono bizarramente tão achinelado como as praias do Estio vassourava metodicamente a noite de bruxedos do seu perfumado fumegar de castanha e dos seus assustadores dentes d’abóbora.
terça-feira, outubro 31, 2006
Estragar o Stradivarius
Violinos vindos de Cremona, lábios a saltarem como beijos, versos a afagarem as pupilas, mares que nem existem...
Estridente despertador!
Estridente despertador!
segunda-feira, outubro 30, 2006
Sarcófagos & Sacrários
Esgotava os ócios em sarcófagos conversados. Estiolava os ossos em sacrários convertidos
Absurdamente!
Absurdamente!
domingo, outubro 29, 2006
sexta-feira, outubro 27, 2006
quarta-feira, outubro 25, 2006
terça-feira, outubro 24, 2006
segunda-feira, outubro 23, 2006
sexta-feira, outubro 20, 2006
Frustrado Freud
A memória, no seu passo distraído, entrou no labirinto das viagens e dos livros e dos amigos e das amadas e das alegrias e das amarguras e dos...
E, em seu trôpego caminhar, nunca mais encontrou a razão.
E, em seu trôpego caminhar, nunca mais encontrou a razão.
quarta-feira, outubro 18, 2006
domingo, outubro 15, 2006
Fados e Fortunas
Sempre adornado com amuletos, não tinha nenhum talismã que lhe garantisse tesouro ou talento.
quarta-feira, outubro 11, 2006
Inflamação Pendente
Análises, biópsias, cápsulas, drageias, estetoscópio, fármacos coloridos, gotas, hipnose, infusões, jeropiga, líquidos espessos, mezinhas, nada mesmo, orações, pílulas, quinino, receitas exóticas, sais, tónicos, utopias médicas, vacinas, xaropes, zimbros... Experimentou tudo, como qualquer bom hipocondríaco.
E, no final, concluiu que a sua única doença era a gravata berrante.
E, no final, concluiu que a sua única doença era a gravata berrante.
terça-feira, outubro 10, 2006
Lágrimas d’Engano
Levantou o olhar das palavras e viu uma chuva tão súbita como uma gargalhada enganada.
segunda-feira, outubro 09, 2006
Policial Beckettiano
A espuma do mar fugia sempre do telefone, como se o homem de negro trajado perseguisse aquelas bolhas de sal e de branco...
quarta-feira, outubro 04, 2006
Pouco Pó
“(...) o viajante passa sempre invisível, sem levantar poeira no silêncio da sua passagem.”
(Lawrence Durrell)
(Lawrence Durrell)
sexta-feira, setembro 29, 2006
quarta-feira, setembro 27, 2006
Viajar no Sofá
Página sim, página também, aquele passaporte de sonhos tinha chancelas de todos os países soberanos, carimbos de fronteiras há muito desaparecidas, marcas d’impérios que só se mantiveram nos livros de História, clichés tão fantasistas como os suspensos jardins da Babilónia ou os muros impensáveis da Atlântida.
sexta-feira, setembro 22, 2006
quinta-feira, setembro 21, 2006
Bestiário Freudiano
Envernizada nos clássicos negro e encarnado, a lusitana joaninha deitava-se em silêncio na almofada do psicanalista.
segunda-feira, setembro 18, 2006
sexta-feira, setembro 08, 2006
Jantar Teatro
As folhas das árvores caíam no prato da conversa como se fossem gotas verdes para temperar adjectivos.
quinta-feira, setembro 07, 2006
Farda Laboral
Magrinho, magrinho, magrinho como uma linha de desenho. Retorcido, retorcido, retorcido como um arabesco de tinta. Visto em qualquer paisagem não tinha vulto de gente. Parecia mais um competente clip de escritório.
quarta-feira, setembro 06, 2006
Bruscas Badaladas
Aquele telefone só devia funcionar quando a lua já estava a adormecer e o sábado se preparava para acordar...
segunda-feira, agosto 28, 2006
segunda-feira, agosto 14, 2006
Bizarros Tempos
Desde que os ponteiros de pulso entraram em greve e o relógio de parede se reformou, derrete-se a areia na ampulheta e congelam as horas na clepsidra.
quarta-feira, agosto 09, 2006
terça-feira, agosto 08, 2006
segunda-feira, agosto 07, 2006
Marés de Memórias
Um cliché a sépia, um cheiro de tipografia, um disco de vinil, uma conversa revivalista – e, sem aviso, o nosso filme recua até à época em que o Fellini e o Buñuel ainda estreavam novas películas...
quinta-feira, agosto 03, 2006
Fé em Férias
Um imenso rebanho d’almas, com seus terços de design e decotes d’antigo pecado, peregrinava d’avião pelos templos d’areia, sol e iodo.
terça-feira, agosto 01, 2006
Argêntea Ampulheta
Caíam-lhe as horas da algibeira rota, como se fossem moedas de prata embrulhadas em luar...
sábado, julho 22, 2006
Fantasia Brilhante
O alquimista mirou um instante as bolas de sabão e o céu logo ficou repleto de micas, missangas, lantejoulas...
terça-feira, julho 18, 2006
Passos Insensatos
Abandonou ladeiras e avenidas, descalçou os sapatos e começou a andar por entre o labirinto das palavras.
segunda-feira, julho 17, 2006
Alucinações Avulsas
Varria energicamente a noite dos noctívagos, cantava vogais longínquas num jeito de violino, desarrumava mobílias antigas no pátio interior do seu castelo, invocava o estranho erotismo das artes marciais. Enfim, alucinava!
quinta-feira, julho 13, 2006
Panoramas Miúdos
Complicava o quotidiano com minudências, bagatelas, questiúnculas, em vez de mirar o horizonte na profundidade de um espelho panorâmico...
quarta-feira, julho 12, 2006
terça-feira, julho 11, 2006
Cartola Suspirante
Em vez das clássicas orelhas do espantado coelho, a cartola mágica escondia um arco-íris de ais risonhos.
segunda-feira, julho 10, 2006
Rugas e Risos
Papéis poeirentos com letras enrugadas. E, no entanto, têm caleidoscópios de palavras como se fossem gargalhadas matinais.
sexta-feira, julho 07, 2006
Inútil Astúcia
“Ventoinhas de algibeira, micro-misturadores fabricados em Hong Kong, martelos telescópicos para matar moscas, saca-rolhas pneumáticos, tenazes e colherinhas ‘made in Korea’, minúsculos candeeiros de querosene vindos de Xangai, marionetas chinesas, os escaparates fazem sonhar aqueles que nunca resistem às compras de um objecto astuciosamente inútil.”
(Olivier Rolin)
(Olivier Rolin)
quarta-feira, julho 05, 2006
A Papoila e a Cicuta
E se as papoilas sonhadas ao longe acabassem por perfumar as cicutas quotidianas? Há cada indagação mais bizarra a enfeitar o chapéu do jardineiro...
terça-feira, julho 04, 2006
Mastigar as Horas
Um horizonte de pirilampos e de lantejoulas...
E as horas a caírem da mesa como migalhas de toalha ou papéis de secretária.
E as horas a caírem da mesa como migalhas de toalha ou papéis de secretária.
segunda-feira, junho 26, 2006
Coreografia Matinal
Dança, organza, dança! Eis que chega, qual cereja de madrugada, a vasta valsa dos tecidos...
sexta-feira, junho 23, 2006
Quiromâncias Geográficas
Lançou todo o seu ouro ao vento despenteado como se pousasse o fútil indicador em cima de um útil mapa de estradas.
quinta-feira, junho 22, 2006
Cenário Inventado
No teatro da memória, onde uma caneta de luz regista caligrafias coloridas, misturam-se o linho fino e os cintos largos, o eco dos timbres e os cadeirões calados, um travo a limão e demais frescuras da época, olhares longos e pálpebras adormecidas.
quarta-feira, junho 21, 2006
Alucinação de Solstício
A sombreada silhueta do arvoredo esverdeado imprimiu-se numa tranquila vidraça preguiçosa e o clássico carrilhão da torre já imita um risonho coro de chilreios.
sábado, junho 17, 2006
Aparo Bêbado
Um amuleto zíngaro, versos de poeta grego, vozes vindas do Levante, um cabelo amarelado, cheiro a manjerico, famas d’outrora... – meros arabescos de caneta ébria.
sexta-feira, junho 16, 2006
Sopro do Verbo
Um ciclone de palavras abana imagens cinéfilas, mapas de atlas, melodias infantis, leis avulsas, poeiras antigas, caracóis despenteados, didascálias de teatro, perfumes almiscarados, granitos da memória, página apócrifas, vinhos de desejo, pratas de família, ícones de templo, segredos murmurados, asas de borboleta, medos futuros, retratos a sépia, sonoras gargalhadas, paquetes de lata, telhas de fantasia...
quinta-feira, junho 15, 2006
Horas d’Alba
Entardecia em tertúlias, dançaricava ao vento, fantasiava nas alvoradas, preguiçava algumas manhãs. E, a certa altura, já não sabia se conferia as horas numa ampulheta ou numa clepsidra.
quarta-feira, junho 14, 2006
Manteiga e Canela
A brusca chuva do estio amolece as hortas e enverniza o asfalto como se fosse manteiga caída em torrada quente. Mas o seu único encanto é exalar um perfume tão raro como canela a polvilhar páginas de livro.
segunda-feira, junho 12, 2006
Artes de Furtar
O boneco de cetim, sentado num balancé de luz, nem reparou que a madrugada já tinha roubado um táxi ao chilrear dos pássaros…
sexta-feira, junho 09, 2006
quinta-feira, junho 08, 2006
Tinta Mágica
Transformar calendários em silhuetas a golpes de caneta, como se os dias que nos agrilhoam à responsabilidade pudessem ser transformados em levianos sorrisos.
quarta-feira, junho 07, 2006
Doce Papel
Um infantil bote de papel, feito com cuidados de filigrana loura, naufraga na voraz tempestade de uma língua mais desconversadora que um mal dançado tango moreno.
segunda-feira, junho 05, 2006
Torrar Miolos
Uma farripa de brisa, capaz de agitar folhas de limoeiro, páginas de livro ou seios femininos, talvez serenasse um pouco a dourada maresia...
domingo, maio 28, 2006
Fantasia Romana
“Depois de se passar por um pequeno forte português gracioso como uma capela dos arredores de Roma e cujos canhões são como poltronas à sombra serpenteia-se uma hora na garganta cheia de água barrenta.”
(Blaise Cendrars)
(Blaise Cendrars)
Só Asas
Em susto de sonho, o solitário que lê um romance sórdido, escrito por qualquer sinistro nome, vê saltar das páginas silenciosas uma borboleta de poesia...
quinta-feira, maio 25, 2006
Saudades das Férias
Revirar o calendário, para de lá saltarem os oragos do dia e os feriados republicanos, as datas fiscais e as efemérides redondas, o tempo das papoilas e a época das castanhas, os meses do iodo e também os da geada....
Mas o qu’interessa mesmo são as férias!
Mas o qu’interessa mesmo são as férias!
terça-feira, maio 23, 2006
Moedas Fugidias
Louras, acobreadas ou argênteas, todas as moedas fugiam do porta-moedas num silêncio suspeito, como se usassem pantufas de sonâmbulo ou calçado de meliante.
segunda-feira, maio 22, 2006
Mundo Infantil
Em tinta da China, um antiquado trajo transalpino.
Em azul da Prússia, um não canoro pássaro carioca.
Em folha de Flandres, um fumegante barco nipónico.
Em...
Em azul da Prússia, um não canoro pássaro carioca.
Em folha de Flandres, um fumegante barco nipónico.
Em...
sexta-feira, maio 19, 2006
Alfabeto Colorido
Aquela caneta misteriosa, em vez de gastar vulgar tinta azul ou preta, escrevia palavras em néon amarelento ou escarlate.
quinta-feira, maio 18, 2006
Silêncio Submarino
Viciado no mirar em seu redor como se o pescoço fosse um periscópio de submersível, pousava a atenção, o sorriso ou a ironia sobre coisas e conversas, mas largando quase sempre o perfume d’enigma de quem desfaz a utilidade dos dias ou a estranheza que suscita uma boina guevarista a soprar trompa num coreto lusitano.
quarta-feira, maio 17, 2006
Taras Unidas
Uma cartola andarilha a descer os degraus da estante torta e a violenta vozearia da loura louca a gargalhar graçolas contra uma robusta renda de subtis silêncios...
Absurdos de colecção!!!
Absurdos de colecção!!!
terça-feira, maio 16, 2006
Sem Preço
Na algibeira farta, cinco sestércios, um denário, mais um morabitino, ainda dez mil reis, um meio tostão, também dois cêntimos – e nenhuma daquelas moedas, mesmo as de prata como as preferidas pelo roberto lorquiano, chegava para comprar uma nuvem, um sorriso ou um sonho.
segunda-feira, maio 15, 2006
Gato-Lobo
Colado à vidraça por um ténue fio de nada, o negro felino mira o voo de pombas e gaivotas sentenciando que são simples uvas verdes de fábula lupina...
sexta-feira, maio 12, 2006
Esse Silvado
Silenciado o sino, saltou a sebe. A seguir, sem som e sem sarilhos, soprou um assobio e sofreu solitário...
quarta-feira, maio 10, 2006
Rios Sem Sentido
Um risco de fachada mourisca, uma silhueta de cabaré berlinense e um bicho com asas metálicas – um fabulário, um imaginário e um bestiário.
terça-feira, maio 09, 2006
Bizarra Fronha
Nas pupilas nuas, um bote azul em fita prata; à laia de brinco amarelado, mudos telefones sem flauta feiticeira; nos lábios desertos, algumas palavras caladas e uma sombra de morango...
segunda-feira, maio 08, 2006
Chilrear Altaneiro
Um chilrear de passarada vária perdida entre os verdes.
Um chilrear de amoras silvestres a ferverem num bule.
Um chilrear de amoras silvestres a ferverem num bule.
sexta-feira, maio 05, 2006
Nuvem-Cartola
Uma nuvem cor de café erra connosco dias a fio... – até que a brisa de um sorriso dourado ou a clareza de alguma ideia fresca como neve afaste essa mancha aziaga para lá do horizonte.
quinta-feira, maio 04, 2006
Defeito Perfeito
A curiosidade esquece todas as prudências quando entra de rompante em qualquer labirinto cifrado, seja em busca de um termo de timbre vagamente camiliano, seja na demanda de um feminino perfil perfumado a pólvora.
terça-feira, maio 02, 2006
Metáforas Imperfeitas
O londrino Big Ben fura a pupila ainda mal habituada ao sol, como se fosse um par de seios prenhes de prazer, uma zaragata entre arranhadas gatas por qualquer bagatela, um desgosto ímpar tatuado numa alma vazia de milagres.
domingo, abril 23, 2006
Cachaça de Boticário
“Cana serve de mezinha
Pra chulé e suvaqueira,
Unha encravada, frieira,
Vitiligo, sarna e tinha (...)."
(Manoel Monteiro)
Pra chulé e suvaqueira,
Unha encravada, frieira,
Vitiligo, sarna e tinha (...)."
(Manoel Monteiro)
sábado, abril 22, 2006
Tecidos Discordantes
Uma solitária gelha na vasta planície do lençol bastaria para zaragatear o almoço entre umas pupilas aveludadas e uma voz sedosa.
quarta-feira, abril 19, 2006
Espreitar Destinos
Sinais de ouro, sinas de chumbo...
Tudo se desfaz, como se nada passasse de um risco com cheiro a incenso ou uma cortina cénica que cai sobre o sono.
Tudo se desfaz, como se nada passasse de um risco com cheiro a incenso ou uma cortina cénica que cai sobre o sono.
terça-feira, abril 18, 2006
Observadores d’Ampulheta
Do alto do século espreita os anos que passam como quem se instala à janela para conferir as rugas da rua.
segunda-feira, abril 17, 2006
Toldadas Cintilações
Uma tremura de luz agita o pacato rio e um barco de garrafas fura a violenta onda da noite.
quinta-feira, abril 13, 2006
Detectives de Brincar
Aos charadistas do quotidiano – empenhados como os viciados em palavras cruzadas, meticulosos como os coleccionadores de borboletas, lógicos como os famosos mestres de xadrez – não se lhes pode sugerir o menor indício, seja uma dissonante nota na pauta ou um pormenor absurdo na paisagem, sobre qualquer enigma de algibeira. Pacientes como os inventores da pólvora, mais ano menos mês, encontram sempre a chave dessa verdade de pacotilha.
quarta-feira, abril 12, 2006
Gato Medium
A hirta cauda do felino, com seu leve agitar de bandeira em mastro esvoaçante, ao pisar felpudos tapetes encarnados ou soalhos encerados de brilho, sem nunca perder seu ar de Xá da Pérsia, de Senhor do Mundo, tornava-se uma metáfora do desejo adiado.
terça-feira, abril 11, 2006
Traição do Olhar
As pupilas lêem, vezes sem fim, uma palavra que, entre milhares d’outras, a mão escreveu. Distraídas com os exércitos de letras, não descobrem que o sentido que se pretendia dar àquele termo é contrariado por aquilo que foi, de facto e d'ortografia, registado no papel.
E é preciso a lupa de pupila alheia para denunciar aquela traição do olhar, que nos convenceu que tínhamos escrito o que não tínhamos escrito.
E é preciso a lupa de pupila alheia para denunciar aquela traição do olhar, que nos convenceu que tínhamos escrito o que não tínhamos escrito.
segunda-feira, abril 10, 2006
Testamento Rasgado
Quando, finalmente, cerrou as pálpebras deixou ao Mundo um sorriso como herança, duas palavras absolutamente justas, três amigos que lhe perpetuaram a memória. Mas nenhum testamenteiro para dividir moedas douradas, zangas ancestrais, ambições de famas futuras.
sexta-feira, março 31, 2006
Diálogos d'Especiarias
A conversa era cordata. Repentinamente, um brado. Em réplica, um grito. Como tréplica, uma estalada.
E, assim, apimentaram a canela...
E, assim, apimentaram a canela...
quarta-feira, março 29, 2006
Ruídos Cívicos
Ao contrabaixar um jazz antigo em noite vadia como gato de pêlo escuro, uma algazarra repentina interrompe-lhe a partitura da memória – mais uma zaragata entre pardas fardas da autoridade!
terça-feira, março 28, 2006
Perfume Atlântico
Encalhou o navio no cortinado da janela, como se o titânico paquete fosse um singelo vaso de manjerico convencido que era âncora...
domingo, março 26, 2006
Bisbilhotices Dominicais
O olhar alheio vai saltitando entre a letra e os perfumes, tanto pousa na garrafa âmbar como num penteado ruivo, aparentemente sem distinguir um texto apócrifo da gente gira...
Distraído domingo!
Distraído domingo!
sábado, março 25, 2006
quinta-feira, março 23, 2006
Exposição de Guardanapos
Um travo a alho, um grão de sal, uma conversa mais apimentada, um olhar de mel, uma nódoa de vinho... Aquela lingerie de paladares é exibida num estendal de roupa, quando as cortinas do teatro já caíram no sono, como se fossem bandeiras de naus e de iates a coalhar uma marina de porto exótico.
quarta-feira, março 22, 2006
Discreto Capitão Haddock
"De cabelo na venta, Orlando Piçarra da Rebolosa gritava que o pai era um sáfaro e tinha um toutiço de chibo! Mas, doutora, meu pai é um mamarracho e tem um cachaço grosseiro! Mas, doutora, meu pai é um zarolho, um xordo, um visigodo, um urinol, um torresmo, um salsicha, um ruminante, um queixumeiro, um parto prematuro, um odisseico, um narcótico, um malfeito, um luze-luze, um Ketchup! Mas, doutora, meu pai é um jarreta, um israelita, um honoris causa, um gorgomilo, um furúnculo, um emolumento, um descoco, um canhonaço, um bichoso, um amanuense!"
(Carlos Mota de Oliveira)
(Carlos Mota de Oliveira)
segunda-feira, março 20, 2006
Noites Fellinianas
Cabelos d’ouro sobre pele d’ébano, cortinas vermelhas em tábuas amarelas, odores a canela e a cannabis, um cow-boy a galopar numa guitarra garrida e uma actriz com um olhar a preto e branco.
quinta-feira, março 16, 2006
Bestiário de Plástico
Um olhar batráquio atrás da porta, um espelho que reflecte o gato e uns peixes a pender do lustre.
quarta-feira, março 15, 2006
Voos Cancelados
“Todos aqueles que nos primeiros dias de Março perscrutaram atentamente o céu ficaram desapontados. Este ano as andorinhas chegarão atrasadas, devido a uma greve dos controladores de voo.”
(Jorge de Sousa Braga)
(Jorge de Sousa Braga)
terça-feira, março 14, 2006
segunda-feira, março 13, 2006
Arquitectura Melada
O delgado fio de mel escorria, muito suavemente, até recortar todo o tom de morango do esguio telhario da praça alfacinha...
terça-feira, março 07, 2006
Vadia Língua
Um olhar denso como cimitarra turca pousa suavemente sobre as sempre soltas pérolas da tagarelice europeia.
segunda-feira, março 06, 2006
quinta-feira, março 02, 2006
Delicada Amizade
Sólida como um fio d’aço, valiosa como filigrana antiga, frágil como cabelo longo...
quarta-feira, março 01, 2006
Prado de Pano
Um D’Artagnan de rolha passa toda a noite a trotar na mesa da esverdeada imaginação de um menina...
terça-feira, fevereiro 28, 2006
segunda-feira, fevereiro 27, 2006
domingo, fevereiro 26, 2006
Minúsculo Basquetebolista
“Estendeu os braços e tentou chegar a Deus, tentou, pelo menos, tocar-lhe nos pés, pedir-lhe uma salvação. Deus não respondeu.”
(João Rosas)
(João Rosas)
Entrudo Erudito
Há um ligeiro toque veneziano estampado na cara das pessoas que se cruzam connosco...
sexta-feira, fevereiro 24, 2006
Molduras aos Montes
Sólida nas paredes de velha pedra, férrea nos tons da ampla fachada, cheia de sombras densas, a casa avoenga era erguida com um só dedo enfiado na argola.
A impoderabilidade de uma mera nuvem abatia-se, sem prévio aviso, com seu rectângulo de madeira e seu peso de bigorna, sobre o dorido sapato da moça.
Distraidamente, o leilão prosseguia...
A impoderabilidade de uma mera nuvem abatia-se, sem prévio aviso, com seu rectângulo de madeira e seu peso de bigorna, sobre o dorido sapato da moça.
Distraidamente, o leilão prosseguia...
quinta-feira, fevereiro 23, 2006
Heranças Complicadas
"Não me coube em herança qualquer deus, nem ponto fixo sobre a terra de onde algum pudesse ver-me. Tão pouco me legaram o disfarçado furor do céptico, a astúcia do racionalista ou a ardente candura do ateu."
(Stig Dagerman)
(Stig Dagerman)
quarta-feira, fevereiro 22, 2006
Memórias Gastronómicas
Enquanto permanecia a eterna tagarelice, havia um peixe de recordações, com suas escamas de argentinas moedas, que continuava a ser grelhado aromaticamente no disco do pôr do sol.
terça-feira, fevereiro 21, 2006
Dias Trocados
A risonha brisa marinha, mesmo com seu sotaque de longínquas montanhas, abre a cortina à manhã da semana.
segunda-feira, fevereiro 13, 2006
Asas Coloridas
Uma borboleta com mais cores que o arco-íris persegue-nos em sonhos a preto e branco com um olhar tão severo como o daquele famoso saxofonista que já só serve para forrar uma parede de lâmpadas minúsculas e de estrelas desmesuradas.
quinta-feira, fevereiro 09, 2006
Céus Confusos
Uma nova estrela d’ouro e um outro planeta escarlate caíram, com a força de uma pincelada de Van Gogh, numa carta celeste bem mais velha que Copérnico.
quarta-feira, fevereiro 08, 2006
terça-feira, fevereiro 07, 2006
Duplo Erre
Deambulava, como uma cega bússola ou uma alma desnorteada, da romã maçónica para o católico relicário e, depois, retornava, sem nunca se deter em qualquer dos dois erres.
Arre!
Arre!
sexta-feira, fevereiro 03, 2006
Risonho Nevoeiro
O véu madrugador da neblina piscou o olho, num misto de espanto e cumplicidade, quando entrou numa cela de gargalhadas livres e, depois, numa praça de fantasistas desejos infantis.
quinta-feira, fevereiro 02, 2006
Velhos Antiquários
Um olhar pelintra passeia-se entre dentes d’elefante rendados, ponteiros de bolso e de cuco, Senhoras de sacras vestes, floretes & sextantes, tinteiros para aparos d’outros tempos, missais & oratórios, dourados ou azuis em porcelana, espelhos da cidade dos Doges, mesas para guerrear bispos contra torres.
quarta-feira, fevereiro 01, 2006
Multidão Madrugadora
“Era cedo pelos padrões teatrais, mas as ruas já fervilhavam de gente. (...) Prestidigitadores e acrobatas; moedeiros, ratoneiros e trampolineiros; dançarinos, rabequistas, larápios e burlões, vagabundos de todas as espécies. Três gerações de tunantes engrossavam o magote.”
(Louise Welsh)
(Louise Welsh)
terça-feira, janeiro 31, 2006
segunda-feira, janeiro 30, 2006
Bagatelas Contemporâneas
Velas brancas deslizam num rio manso d’ideias com a mesma fluidez com que os cartões de crédito tiram dinheiro dos bancos...
quinta-feira, janeiro 26, 2006
Sonora Cavalgada
Em plena avenida ampla, uma cavalgada das valquírias, sem qualquer donzela loura nem um só corcel garboso. Apenas as notas de Wagner a saltitarem no bolso do telemóvel...
terça-feira, janeiro 24, 2006
Pensar Futuro
Cinza no tempo, depois do sol inundar pupilas; searas com fogo, colhido que foi o trigo da metáfora; flores sem viço, já esquecidas do equinócio de Março; lágrimas miúdas de menina, a estragar-lhe a face d’encanto..
E, lá ao fundo, há um gigantesco ponto de interrogação plantado no horizonte.
E, lá ao fundo, há um gigantesco ponto de interrogação plantado no horizonte.
quinta-feira, janeiro 19, 2006
Época de Apostar
“Tinha a duquesa o costume de fazer com ele apostas extravagantes, mais ainda quando desejava o dinheiro de que o bom homem tinha prazer em separar-se, pois estava perdidamente enfeitiçado por tão sedutora mulher.”
(Paul Scarron)
(Paul Scarron)
quarta-feira, janeiro 18, 2006
Jardinar Gente
A flor gorda como modelo de Botero nem assim enchia o comboio onde se misturavam cachecóis gelados e escuros óculos de sol.
terça-feira, janeiro 17, 2006
Atrevida Ignorância
Quando os tímpanos simplórios escutam conversas filatélicas, pensamentos matemáticos ou discussões hegelianas, e se vêem obrigados a cerrar os lábios palradores, migram logo a sua fanfarronice para a tertúlia do lado.
domingo, janeiro 15, 2006
Traições Poéticas
Aquela poliglota de botequim, que gostou tanto de ler Borges em francês, apreciará versos de Rimbaud em castelhano?
sexta-feira, janeiro 13, 2006
Reminiscências
Um fio de memória começa a bordar, no azul limpo da manhã, uns caracóis negros de menina.
quinta-feira, janeiro 12, 2006
Madrugar
O osso descobre que dormiu gelado, uma campainha de porta imita o despertador e um final de verso esfumou-se como os sonhos.
terça-feira, janeiro 10, 2006
Absurdo Quotidiano
O macaco, empoleirado no acordeão em habilidades de papagaio, mendigava uma moeda para o seu animal de estimação: o ceguinho.
segunda-feira, janeiro 09, 2006
Espírito do Sítio
Há mansões fantasma e choupanas risonhas, palacetes austeros e cubículos simpáticos. Afinal, quem repara nos tiques decorativos e nas taras dos moradores quase podia dizer que cada casa é um rosto de gente.
domingo, janeiro 08, 2006
Conversas de Salão
A muralha de palavras, marteladas em tom tonitruante para apagar os timbres que não incomodam a vizinhança, acaba desfeita pela catapulta da razão.
sábado, janeiro 07, 2006
Trim!
Uma longuíssima fila de despertadores, com todos os ponteiros desalinhados, não pode assustar o divertido nascer da noite.
terça-feira, janeiro 03, 2006
Ressaca com Datas
As borbulhas de champanhe nas ondas do mar embriagam devagarinho a manhã ainda adormecida.